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Archive for outubro \15\UTC 2013

O texto é um pouco longo, mas convido você a viajar pelos desertos comigo, e descobrir as belezas ocultas num tempo aparentemente tão sombrio. Boa leitura!

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Deserto é um lugar. Um lugar geográfico caracterizado por pouca ou nenhuma chuva, hostil, ermo, vazio, seco.

A Bíblia fala muito de desertos: num deserto Moisés fugiu de faraó (Ex 2:15) e ouviu Deus na sarça ardente 40 anos depois (Ex 3:1-14), no deserto Israel peregrinou por 40 anos (Nm 32:13), para o deserto Jesus foi levado após seu batismo para ser tentado (Mt 4:1), no deserto João Batista viveu (Mt 3:1-4), e no deserto tantas outras histórias aconteceram: Davi, Abraão, Jacó, Elias, etc…

Mas o deserto também é um lugar simbólico. Refere-se à fase da vida em que nos encontramos sós, em luta, imersos em aflição.  Um tempo onde nos falta algo que consideramos essencial: felicidade, saúde, tranquilidade, companhia.

Há vários tipos de Desertos:

  • Deserto existencial – quando, por algum motivo, tudo o que acreditávamos sobre nós mesmos desmorona, e perdemos nosso referencial. Não sabemos mais quem somos, qual nosso chamado, quais os propósitos da nossa vida;
  • Deserto emocional – quando algo tão forte nos acomete que somos tomados pela depressão e angústia, ou por um vazio. Diante de um amor não correspondido, de uma traição, uma perda. Não conseguimos nos alegrar ou demonstrar amor pelos outros;
  • Deserto espiritual – quando nos distanciamos de Deus e perdemos a fé;
  • Deserto financeiro – quando tudo dá errado, e você se vê sem recursos para pagar suas dívidas e suprir suas necessidades mais básicas;
  • Deserto na área familiar – acontece quando a família enfrenta sérias dificuldades, diante da rebeldia de um filho, adultério, falta de entendimento, falta de apoio, incompreensão…
  • Deserto na área física – quando nosso corpo físico fica seriamente debilitado por enfermidades, quando somos tomados por uma dor crônica, uma enfermidade incurável;
  • E outros…

Raramente o verdadeiro deserto é numa área só. E o que acontece muito também é precisarmos atravessar vários desertos, um após o outro… Falamos muito de quando Deus abriu o Mar Vermelho para o povo atravessar; mas o quê os aguardava depois do mar? Outro deserto. Assim também é em nossas vidas. Entretanto, nem sempre o que achamos que é deserto, de fato é.

O que um deserto não é:

  • Tédio/rotina – muitos gostariam que suas vidas fossem cheias de emoções, de grandes proezas, grandes milagres, grandes feitos sobrenaturais. Mas nem sempre é assim. Moisés passou 40 anos no deserto de Midiã cuidando das ovelhas do seu sogro; João Batista, Isaías, Jeremias, e tantos outros grandes homens de Deus nunca operaram nenhum “grande milagre” em seu ministério… Deus passou mais tempo polindo Paulo do que o usando na obra (dos seus 35 anos de cristão, passou 17 no deserto: 3 anos rejeitado pelos cristãos, 10 anos no anonimato e 4 anos preso.) O próprio Jesus, viveu aqui durante 33 anos: 30 anos no anonimato, numa vida comum, e só 3 deles foram vividos no ministério. Deus tem um chamado para cada um. Não importa o que você faça ou o que aconteça com você; o que realmente importa é quem você é diante de Deus. Não despreze a simplicidade.
  • Deserto não é “castigo”, nem maldição, nem sinal de que Deus nos esqueceu. É um tempo difícil, de muita dor, mas com um propósito que redundará em glória nas nossas vidas.
  • Deserto não é uma armadilha de Satanás – desertos são tempos especiais preparados POR DEUS para seus filhos. Temos que pedir discernimento ao Senhor para compreender isso, e não tentar “repreender” ou “rejeitar” algo que o próprio Deus tem agendado para nosso crescimento e edificação.
  • Deserto não é consequência de um pecado que você cometeu.
  • Deserto não é um lugar de permanência – eles são feitos para atravessar.
  • Deserto não é um acidente de percurso ou falta de sorte. Se você é filho de Deus, Ele mesmo te enviará ao deserto, como fez com Jesus. Nosso Bom Pastor não nos conduz somente por pastos verdejantes, mas também nos leva pelos desertos, porque deseja nos ensinar preciosas lições, que só são aprendidas lá.

De todos os fatos descritos na Bíblia, que aconteceram em desertos, o mais marcante e emblemático talvez seja a travessia do povo de Israel pelos desertos do Sinai. Principalmente porque, em 1 Coríntios 10, lemos que esta narrativa deve ser vista como um sinal para as nossas vidas hoje. Então, vamos refletir em três importantes lições sobre isso, não só para nos ajudar em nossos próprios desertos, mas também para saber como ajudar aqueles que estão passando por momentos difíceis.

Êxodo 13:17-18:

E aconteceu que, quando Faraó deixou ir o povo, Deus não os levou pelo caminho da terra dos filisteus, que estava mais perto; porque Deus disse: Para que porventura o povo não se arrependa, vendo a guerra, e volte ao Egito. Mas Deus fez o povo rodear pelo caminho do deserto do Mar Vermelho; e armados, os filhos de Israel subiram da terra do Egito.

É Deus quem nos conduz para o deserto. Ele fez isso com Israel, fez isso com Jesus (Mt 4:1), e fará comigo e com você. Se Deus é bom, e tudo o que Ele faz é bom, e se é verdade que Ele faz com que todas as coisas contribuam para o nosso bem, não tema o deserto. O deserto é a olaria de Deus.

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Por ser coberto somente por pedra e areia, é muito fácil se perder no deserto. Lá não há estradas, placas de sinalização ou postos de informação. É um lugar de confusão, de incertezas. Mas…

1. Com Jesus, o deserto é direção  – Êxodo 13:20-22

Assim partiram, e acamparam-se à entrada do deserto. E o Senhor ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem para os guiar pelo caminho, e de noite numa coluna de fogo para os iluminar, para que caminhassem de dia e de noite. Nunca tirou de diante do povo a coluna de nuvem, de dia, nem a coluna de fogo, de noite.

Sem nenhum ponto de referência, os israelitas dependiam só de Deus para caminhar. No deserto nos encontramos sós. Os amigos desaparecem. Não encontramos uma solução para o problema que estamos enfrentando. Não enxergamos uma luz no fim do túnel. Mas o Senhor quer ser a nossa bússola no deserto: “Quando andar em trevas, e não tiver luz nenhuma, confie no nome do Senhor, e firme-se sobre o seu Deus.” (Is 50:10).

Mesmo que não pareça, Deus sempre está por perto. Só precisamos ouvir a sua voz e obedecer.

O deserto é a melhor oportunidade para exercitarmos nossos músculos espirituais, e buscarmos a Deus com mais intensidade. As maiores revelações do Senhor são feitas no deserto. “Portanto, eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração”, diz o Senhor em Oséias 2:14.

Deus quer nos conduzir pelo deserto até a Terra Prometida, mas precisamos aprender a não dar ao problema maior atenção do que damos a Ele. Deus nos conduzirá passo a passo até a saída, mas precisamos voltar nossos olhos para Ele. Muitas vezes nos desesperamos diante das dificuldades, gastamos tempo buscando a solução por nós mesmos, e ficamos andando em círculos pela areia (fazemos bobagens que prolongam nossa permanência no deserto).

Deserto não é lugar para se ficar parado ou ziguezagueando, é lugar para marchar (Ex 14:15), mas marchar na direção certa. Muitos começam a andar na direção contrária, voltando para o “Egito”, se distanciando do Senhor.

Aprenda a ouvir a voz de Deus através da sua Palavra (Bíblia). Não se deixe vencer pela situação, creia que Deus dará o escape.

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LUZ

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Os desertos também são sombrios e extremamente perigosos. Mas…

2. Com Jesus, o deserto é um lugar seguro – Ex 14:13-14.

Moisés, porém, disse ao povo: Não temais; estai quietos, e vede o livramento do Senhor, que hoje vos fará; porque aos egípcios, que hoje vistes, nunca mais os tornareis a ver. O Senhor pelejará por vós, e vós vos calareis.

Entenda que, com Jesus, o deserto muitas vezes é um lugar de livramento. O deserto foi um livramento para Israel, que estava fugindo da escravidão do Egito. Para o rei Davi, o deserto foi um lugar de fuga da ira de Saul. Quando estiver em meio ao deserto, dê graças (1 Ts 5:18), Deus está protegendo você. O deserto pode ser o livramento de um pecado, de uma tragédia maior, livramento da morte. Talvez você nunca saiba o que teria acontecido se Deus não o tivesse levado para o deserto. Confie que Deus está cuidando da sua vida. Em Jeremias 31:2-3 está escrito: “Assim diz o Senhor: o povo dos que escaparam da espada achou graça no deserto. Israel mesmo, quando eu o fizer descansar. Há muito que o Senhor me apareceu, dizendo: Porquanto com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí.”

Entre o povo de Israel, muitos pereceram no deserto e não conseguiram sair dele, porque estavam ocupados demais reclamando, murmurando, olhando para seus problemas, e não enxergaram o livramento de Deus: “E não murmureis, como também alguns deles murmuraram, e pereceram pelo destruidor. Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos. Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia. Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar.” (1 Coríntios 10:10-13).

Também não devemos nos esquecer de que nem sempre o nosso deserto tem a ver só com a nossa própria vida. Muitas vezes Deus está operando em outras instâncias, em outras pessoas através dos nossos problemas. A ida de Israel para o deserto, não só os libertou, mas serviu também para desacreditar os falsos deuses do Egito e destruir os inimigos de Deus. Alguém já disse que “Quanto menor o seu mundo, maiores os seus problemas e mais intenso seu sofrimento”. Confie que Deus está operando.

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Outra característica dos desertos é que são áridos, secos, cobertos de areia e pedras. Mas…

3. Com Jesus, o deserto é terra fértil – Ex 16:4 e 35.

Então disse o Senhor a Moisés: Eis que vos farei chover pão dos céus, e o povo sairá, e colherá diariamente a porção para cada dia, para que eu o prove se anda em minha lei ou não. E comeram os filhos de Israel maná quarenta anos, até que entraram em terra habitada; comeram maná até que chegaram aos termos da terra de Canaã.

No deserto Deus transforma água amarga em doce, faz jorrar água da pedra, faz chover pão do céu, faz com que as nossas roupas não envelheçam; ele nos supre, ensina, fortalece; no deserto amadurecemos, aprendemos a reconhecer nossa limitação, nossa pequenez, e também a grandeza de Deus. O deserto é o local em que aprendemos que é Deus quem supre todas nossas necessidades. No deserto aprendemos a depender tão somente do Senhor, e a nos deleitar nele por quem Ele é.

Lembro-me de certa vez, quando eu enfrentava um problema muito sério por conta de um tumor que surgira no meu pé esquerdo. Este tumor me causava dores terríveis, e durante anos eu me submeti a tratamentos dolorosos que de nada adiantavam. Um dia, eu estava orando e meditando no texto de Isaías 40:31, que diz que “os que esperam no Senhor renovarão as forças, subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; caminharão, e não se fatigarão.” Então comecei a orar e clamar ao Senhor que tivesse misericórdia de mim, e cumprisse essas Escrituras na minha vida, me trazendo cura. Foi quando ouvi aquela voz, me chamando pelo nome, e dizendo: “Márcia, águia não precisa de pé para voar.” Simples assim! Deus queria que eu aprendesse que a minha vida e o meu relacionamento com Ele não precisavam de nada mais além Dele mesmo! Deus estava me ensinando, através da dor, a me deleitar Nele.

No deserto também nos conscientizamos de que não somos nada sem Deus. “Nu saí do ventre de minha mãe, e nu tornarei para lá. O Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1.21). Tudo o que temos vem do Alto. E no deserto podemos perceber isso de maneira indubitável. O próprio Jó, reconheceu seu tempo de deserto como sendo bênção em sua vida: “Deus, antes…” (antes de perder a família, os bens, a dignidade, a saúde…) “Antes, eu te conhecia de ouvir falar, mas agora, eu te conheço de contigo andar.”

Os maiores milagres, as maiores lições, os testemunhos mais impactantes são daqueles que atravessarem os mais terríveis desertos, e venceram. Mas, para isso, precisamos admitir o tratamento do Senhor. E permitir que Ele opere o seu poder em nossa fraqueza. “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte.” (2 Co 12:9-10). Sim, se estivermos em Cristo, nosso deserto se tornará num manancial de milagres.

Faça do seu deserto uma terra fértil, frutifique para a Glória de Deus, para crescimento pessoal e para abençoar outras vidas.

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CONCLUSÃO

Um tempo de deserto pode durar 40 min, 40 dias ou 40 anos. Como apareceu para Jesus, Satanás sempre aparecerá no deserto para nos tentar, nos fazer duvidar da nossa própria identidade e nos levar a desistir da fé. Mas passar pelos períodos longos com fé e integridade é o que fará toda a diferença.

O milagre é para aquele que vai até o fim no deserto: Daniel 12:13 – “Tu, porém, segue o teu caminho até ao fim; pois descansarás e, ao fim dos dias, te levantarás para receber a tua herança.” Então, mantenha o coração agradecido, ouça e seja obediente à direção de Deus e permita que o Espírito Santo frutifique através de você.

No momento certo, aquele que venceu o deserto porá um fim ao seu sofrimento. Permaneça fiel, e a vitória virá.

“Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo. Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós. Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos. Trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também nos nossos corpos. E assim nós, que vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também na nossa carne mortal. Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente. Não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas.” 2 Co 4:6-11, 16-18.

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Ser Igreja

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Márcia Rezende

Bacharel em Teologia e Educação Religiosa

Marília/SP

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Permitida reprodução e distribuição sem fins lucrativos

mediante citação da fonte e autoria.

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