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Archive for 25 de março de 2010

 

 Quando se fala em vinho e algumas bebidas alcoólicas, muitos pensam: “A Bíblia condena a embriaguez, mas beber só um pouquinho pode”. Assim, a cada dia cresce o número de cristãos que “bebem socialmente”. Isso, sem contar os países onde a bebida está profundamente entranhada em seu contexto cultural. Entretanto, ser Igreja não implica em seguir costumes culturais ou sociais, mas manter-se firme aos princípios e valores inegociáveis da Palavra de Deus. Então vamos ver o que as Escrituras têm a nos ensinar a este respeito.

Para começar, é importante saber que toda a Bíblia está repleta de textos que condenam a bebida em todos os sentidos: tanto o alcoolismo como o beber socialmente. Veja alguns exemplos:

“O sábio mostra que há um perigo no vinho e que ele é enganador. Ouve filho meu, e sê sabio; guia retamente no caminho o teu coração. Não estejas entre os bebedores de vinho nem entre os comilões de carne. Porque o beberrão e o comilão caem em pobreza; e a sonolência vestirá de trapos o homem” (Provérbios 23:19-21).

“Para quem são os ais? Para quem, os pesares? Para quem, as rixas? Para quem, as queixas? Para quem, as feridas sem causa? E para quem, os olhos vermelhos? Para os que se demoram em beber vinho, para os que andam buscando bebida misturada. Não olhes para o vinho, quando se mostra vermelho, quando resplandece no copo e se escoa suavemente.” (Provérbios 23:29-32).

“A prostituição, o vinho velho e o novo tiram o entendimento” (Oséias 4:11).

“Acautelai-vos por vós mesmos, para que não aconteça que os vossos corações se sobrecarreguem de glutonaria, de embriaguez, e dos cuidados da vida, e aquele dia vos pegue de surpresa, como uma armadilha.”  (Lucas 21:34)

“Ora, as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e cousas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais cousas praticam” (Gálatas 5:19-21).

“Não vos embriagueis com o vinho” (Efésios 5:18).

Leia também: Provérbios 31:1-7;  Isaías 5:11, 22; Isaías 28:7-8; Habacuque 2:15; 1 Coríntios 6:9-10 e 1 Pedro 4:3

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Apesar de tantas recomendações, muitos se apegam apenas a algumas passagens do Novo Testamento para justificar o famoso “golinho”.

Antes de tudo, é importante saber que a palavra “vinho” na Bíblia, como várias outras, em seu original, tem mais de um significado. Assim como a palavra “cabo” em português pode significar várias coisas dependendo do contexto da frase, a palavra “vinho” também pode ser empregada em vários sentidos. Em português, vinho é sempre algum tipo de bebida alcoólica feita com o suco da uva, mas seu original em grego (Oinos) e em hebraico (Yayin) pode ser utilizado para descrever o suco espremido da uva (sem álcool), como também esse suco já fermentado (alcoólico), e ainda a bebida comumente utilizada pelos judeus durante as refeições (vinho diluído em quatro ou mais partes de água). Portanto, quando lemos o termo “vinho” na Bíblia, pode ser uma alusão ao suco da uva e não ao nosso vinho de hoje (exemplos: Jeremias 40:10-12 e Lucas 5:36-38). Diante disso, precisamos estudar o contexto para descobrir se era alcoólico ou não, o vinho que Jesus tomou durante a Ceia, por exemplo. Vamos analisar cuidadosamente alguns textos e tentar clarificar melhor essa questão.

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1. AS BODAS DE CANÁ (João 2:1-11) – O primeiro milagre de Jesus se deu numa festa de casamento onde ele estava presente e, ao ser avisado que o vinho acabara, transformou em “vinho” 6 talhas de água (cada uma com a capacidade de 2 ou 3 metretas, sendo que cada metreta equivale a 40 litros). Considerando que os convidados já haviam bebido fartamente quando Jesus transformou cerca de 600 litros de água em “vinho” e mandou servir aos presentes, não é difícil deduzir que, neste caso, a palavra “oinos” signifique suco de uva não fermentado, pois, de outra forma, Jesus estaria incentivando a embriaguez e, com isso, contrariando abertamente as Escrituras, o que sabemos ser algo inconcebível. Jesus nunca contrariou a vontade do Pai, portanto, é tudo leva a crer que Ele fez ali o “vinho novo”, ou seja, o puro e saudável suco de uva.

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2. A CELEBRAÇÃO DA CEIA (Mateus 26:26-30; Marcos 14:22-26; Lucas 22:17-20). Em nenhum dos relatos bíblicos sobre a instituição da Ceia, encontramos o termo “oinos” (vinho/suco da uva), mas apenas as palavras “poterion” –  traduzida por cálice – que indica qualquer objeto usado para tomar líquidos, seja copos de argila ou cálices de metal); e também a expressão “fruto da vide”, ou seja, produto extraído da videira. Então, como podemos saber se o que havia dentro do cálice era vinho alcoólico ou suco de uva? A resposta não é difícil: o fruto da vide ou “vinho” utilizado na Ceia não poderia ser alcoólico (fermentado) porque, na semana da Páscoa, quando a Ceia foi instituída, era estritamente proibido aos judeus consumir, e até ter em casa, qualquer tipo de alimento fermentado (Êxodo 13:7). Vale lembrar que o fermento utilizado em pães e bolos na época era obtido principalmente da espuma do vinho fermentado. Se todo fermento (símbolo do pecado Mt 16:6; Lc 12:1; 1Co 5:6-8), precisava ser exterminado do arraial na semana da Páscoa, seria uma terrível transgressão se as famílias judaicas mantivessem ou ingerissem o vinho alcoólico nessa época. Além disso, o texto fala de “fruto da vide”, e o vinho fermentado é um segundo estágio da bebida, portanto, não pode ser considerado fruto da vide, mas sim um subproduto da mesma. Portanto, a bebida utilizada na Ceia, simbolizando o sangue de Cristo, era pura, livre de quaisquer vestígios de fermento ou álcool. Também é importante esclarecer que, em 1 Coríntios 11:21-22, quando o apóstolo Paulo dá instruções à Igreja de Corinto sobre a celebração da Ceia e lhes exorta acerca das diferenças entre eles dizendo “…enquanto um tem fome, outro se embriaga”, não está falando de embriaguez no sentido que usamos hoje. O termo “embriagado” advém do latim “ebrius”, que além de contaminado, intoxicado ou bêbado significa também saturado (cheio em demasia, não necessariamente de álcool). Assim, no sentido original da palavra, alguém pode se “embriagar” de refrigerante ou de suco de uva, numa referência ao consumo da bebida em quantidades exageradas.

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3. JESUS E JOÃO BATISTA (Mateus 11:18-19). Neste texto Jesus fala do seu ministério e o de João Batista, mostrando que, alguns sempre encontram motivos para rejeitar o Evangelho: “Veio João, não comendo nem bebendo, e dizem: Tem demônio. Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizem: Eis aí um homem comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores.” João Batista era nazireu (Lucas 1:15) e, como tal, desde nascença se absteve não só de toda bebida alcoólica, mas também do suco da uva e até da própria uva, conforme predizia o voto do nazireado (Números 6:3). Diferentemente de João, Jesus tomava “vinho” como deixa claro o texto acima, entretanto, não necessariamente se trate de vinho alcoólico, mas sim de suco de uva. Como podemos chegar a essa conclusão? Simples: pela Lei, nem os reis nem os sacerdotes podiam beber vinho ou qualquer outra bebida forte (Pv 31:4-5, Lv 10:9). E Jesus, que em sua vida exerceu a função de sacerdote e rei (Hb 9:11; Lc 19:38), nunca desobedeceu à Lei (Mt 5:17; Hb 4:15), portanto, também não poderia ter bebido vinho alcoólico.

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4. PAULO E TIMÓTEO (1 Timóteo 5:23) – Numa de suas cartas a Timóteo, líder da Igreja em Éfeso,  Paulo diz a ele para não beber mais apenas água, mas também um pouco de vinho. Lembre que o termo vinho (oinos) pode indicar suco de uva natural ou fermentado. Neste caso, fica claro que Timóteo bebia apenas água “não bebes mais água só” e que Paulo estava abrindo uma exceção por questões de saúde. Timóteo poderia passar a tomar um pouco de vinho (ou suco de uva) diluído em água. Assim como hoje vários medicamentos possuem um pequeno teor alcoólico e não há problemas em ingeri-los, desde que com zelo e cautela. Entretanto, é provável que também neste caso, trate-se do puro suco da uva, já que Timóteo era líder espiritual, e era de suma importância que esses líderes não fossem “chegados” ao vinho e que se mantivessem sóbrios (1 Tm 3:1-3; 2Tm 4:5; Tt 1:7). Fala-se muito hoje dos benefícios que um cálice de vinho diário pode trazer à saúde, mas pesquisas mostraram que o suco puro da fruta oferece esses mesmos benefícios, ainda mais efetivos e sem o comprometimento tóxico do fígado trazido pelo álcool. O que os cientistas estão descobrindo e o apóstolo Paulo já sabia é que o suco da uva auxilia na coagulação sanguínea, aumenta o nível de antioxidantes, diminui a produção de radicais livres, baixa o colesterol, e reduz sensivelmente a arteriosclerose e a incidência de câncer no estômago.

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CONCLUSÃO

A Bíblia nos adverte insistentemente para que sejamos sóbrios e permaneçamos alertas contra as ciladas do diabo (1Ts 5:6; 2Tm 4:5; 1Pe 4:7; 5:8). Sabemos que o álcool, mesmo em pequenas doses como um copo de cerveja ou uma taça de vinho, altera imediatamente o estado mental de quem o ingere, provocando a perda de inibições, prejudicando as percepções, retardando os reflexos, comprometendo o autocontrole e contribuindo para a falta de juízo. A ingestão de bebida alcoólica fragiliza nossa mente e nos tira da posição de soldados em vigília.

Quando a Palavra diz: “não vos embriagueis com o vinho…” (Ef 5:18), a ênfase está na importância de nos encher do Espírito e não na afirmação subentendida de que “tomar só um pouco de vinho não tem problema”.

Além disso, devemos também analisar sempre o reflexo de nossas atitudes sobre o nosso próximo. Lemos em Romanos 14:21: “Bom é não comer carne nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça”. E o verso 13 adverte: “…não faça nada que leve seu irmão a ser mais fraco ou a cair no pecado.” Isso significa que, mesmo estando convencidos de que não há problema em beber só um pouco de vinho e tendo o  autocontrole absoluto sobre a bebida, o simples fato de “bebermos socialmente” pode ser o incentivo que faltava para aquele que já tem uma certa fraqueza ou propensão para o álcool enveredar de vez no vício da embriaguez. E penso ser desnecessário elencar aqui os malefícios que o alcoolismo causa no indivíduo e na sociedade.

Com certeza, é plenamente possível uma pessoa viver bem e feliz sem precisar ingerir álcool, então por que insistir nisso? Renunciar a alguns “prazeres” da carne em favor do Evangelho é privilégio e não tortura. Como escreveu Paulo: “o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo” (Fl 3:7-8). O que é a bebida, comparada com o Reino, senão escória?

A Bíblia nos chama de reis e sacerdotes do Senhor (1Pe 2:9; Ap 1:6), então que possamos escolher nos manter sóbrios e passarmos longe de qualquer tipo de bebida alcoólica. Deus nos ama, e seus mandamentos para as nossas vidas não tem o propósito de serem punitivos ou restritivos, mas de contribuir para que vivamos uma vida abundante e saudável. Se Deus diz em sua Palavra que é melhor não beber, acredite, pois Ele sabe o que faz.

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“O vinho é escarnecedor, e a bebida forte, alvoraçadora; todo aquele que por eles é vencido não é sábio” (Provérbios 20:1)

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Márcia Cristina Rezende
Bacharel em Teologia e em Educação Religiosa
Doctor of Ministry – Especialização em Bíblia
 
Marília/SP
 
Permitida reprodução e distribuição sem fins lucrativos
mediante citação da fonte e autoria.
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