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Archive for janeiro \09\UTC 2010

No início de 2004, após ouvirmos uma palestra sobre as maldições espirituais a que as pessoas que usavam piercings ou tatuagens estavam sujeitas, começamos a ensinar na igreja que tais práticas eram contrárias à vontade de Deus. Nem todos concordaram. Alguns inclusive se tatuaram e colocaram piercing mesmo à revelia da orientação pastoral. Os que assim procederam foram aconselhados e advertidos verbalmente quanto aos perigos de tais práticas sem, entretanto, serem desligados da igreja ou disciplinados por conta disso.

Escrevi um artigo sobre o assunto, falando dos perigos deste modismo, baseado na palestra que tínhamos ouvido e num livro escrito pelo mesmo preletor. O artigo foi postado no site da igreja e teve grande repercussão, sendo reproduzido em dezenas de outros sites e blogs.

O tempo passou. Continuamos sendo questionados por vários jovens. Recebi vários emails contrários ao meu artigo, alguns até ofensivos, me acusando de preconceituosa. Mas mantive minha posição até o início de 2009, quando um desses emails me fez começar a questionar se as coisas eram realmente daquela maneira.

Guardei para mim estes questionamentos e comecei a pesquisar e me aprofundar no assunto. Descobri que meu artigo continha vários erros de referência e também de hermenêutica e exegese. Confesso que fiquei chocada! Principalmente porque cresci num ambiente tradicional e sou conservadora em muitos aspectos. Descobri que não há nada explícito nas Escrituras que condene o piercing ou a tatuagem em si. Trata-se de mais uma questão de “usos e costumes”. Enfim a sentença: a galera que havia nos questionado durante todos estes anos estava certa! E nós estávamos errados!

Retirei o artigo do site e comecei a escrever outro. Ah, como é difícil confrontar nossos “achismos” com a Palavra de Deus! Tive muita dificuldade para escrever o texto. Mas em meio a toda essa celeuma de sentimentos e raciocínios, em todo o tempo ouvia a doce voz de Jesus me dizendo: “filha minha, o mais importante é o amor”. Deus foi semeando em meu coração um amor incondicional inexplicável pelas pessoas. Um sentimento de compaixão tão grande que não deixava espaço para bobagens como piercings ou tatuagens. Passei então a entender um pouco mais a esse Deus e pedi perdão pelo meu legalismo e religiosidade que, embora bem intencionados, servem apenas para separar as pessoas da graça salvadora de Jesus. Não compartilhei essa experiência com ninguém. Até então, como Maria de Nazaré, entendi que era tempo de apenas guardar todas essas coisas em meu coração.

Em meados de setembro deste mesmo ano (2009) alguns jovens da igreja, indignados com o legalismo e as amarras da religiosidade, começaram a orar juntos, jejuar, estudar a Bíblia, debater, ler, escrever e conversar com os pastores e outros líderes espirituais sobre vários assuntos. Na verdade, tudo começou quando alguns irmãos mais tradicionalistas se incomodaram com o fato de alguns irem de boné para os cultos. Um grande alvoroço foi criado em torno do boné, até o ponto de uma família de visitantes ser impedida de entrar no templo porque um dos filhos recusou-se a tirar o boné. Não dava mais para adiar a questão. Como igreja, precisávamos nos posicionar: ou mantínhamos os velhos costumes em nome da “ordem e decência” ou abriríamos mão de alguns posicionamentos também em nome da “ordem e da decência”. Algo precisava ser feito.

Este passou a ser então o principal assunto das conversas em casa, isso porque meus dois filhos faziam parte do tal grupo de jovens “revolucionários” e meu esposo era o pastor presidente da igreja. Palavras como paradigma, dogma, legalismo, escândalo, preconceito, estereótipo, moralismo e religiosidade estavam sempre presentes conosco em nossas refeições.

Na busca por respostas, estes jovens desenvolveram um impressionante nível de intimidade com Deus. Em meio a tantas turbulências, isso foi um oásis lindo de se ver… Depois de muita oração, conversa e um estudo profundo das Escrituras, acabamos concluindo que realmente essa é uma questão pessoal. Assim como a proibição da calça comprida e do corte de cabelo para as mulheres em décadas passadas, assim era a nossa proibição de bonés, chapéus, piercings e tatuagens. Uma questão sócio-cultural, não espiritual (veja mais detalhes no artigo ‘Tatuagens, piercings e afins’).

A notícia se espalhou e cada um fez sua própria leitura dos fatos. A grande maioria reagiu com naturalidade, dizendo que sempre pensaram deste jeito. Alguns pais preocupados (e desesperados) se indignaram com o tal “agora pode”. Adolescentes empolgados comemoraram. Membros de outras igrejas protestaram com frases sarcásticas. Alguns pediram um tempo para se acostumar à idéia. E assim sucessivamente. Os pastores da igreja passaram dias atendendo em seus gabinetes, tirando dúvidas e acalmando os ânimos. Graças a Deus, não perdemos ninguém.

Não foi fácil administrar esta situação. Principalmente porque meu filho decidiu, ele mesmo, depois de vários meses de jejum e oração, fazer uma tatuagem para mostrar a todos que isso não mudaria sua vida com Deus, uma espécie de ícone contra o legalismo e o preconceito. Tivemos que dar muitas explicações e enfrentar acusações por vezes cruéis. Mas o amor de Deus guardou os nossos corações e inundou a nossa igreja de tal maneira que, de repente, não tínhamos mais tempo para perder com esses pormenores. A Gloriosa Shekinah do Todo Poderoso se manifestou entre nós durante os cultos e nos embriagou com as águas restauradores do Seu Espírito. Fomos direcionados assim a combater os verdadeiros pecados, lutar contra os verdadeiros demônios, e pregar o verdadeiro Evangelho. Simples assim 🙂 !

Como líderes espirituais, nunca tivemos vergonha de admitir que erramos ou que mudamos de opinião. Foi assim no início do nosso ministério quando confrontamos vários ensinos tradicionais da nossa denominação. Foi assim agora. E assim continuará sendo. Como barro, queremos estar continuamente na Casa do Oleiro, permitindo que Ele nos quebre sempre que necessário for.

Da mesma maneira que, há vinte anos atrás, foi difícil admitir que não era pecado dançar, bater palmas ou bradar ‘aleluias’ nos cultos, também foi difícil agora admitir que um determinado adereço não tem poder em si mesmo para trazer maldição sobre a vida de alguém. Certamente permanecem o bom senso e o discernimento espiritual: exageros, body modifications extravagantes e tatuagens ofensivas e obscenas sempre serão, no mínimo, inadequados para o cristão. E os pais continuam tendo o direito de simplesmente não permitir que seus filhos façam uma ou outra coisa.

Pessoalmente, continuo não gostando de nada que fuja do convencional. Prefiro sinceramente o terno e gravata e roupas mais clássicas. Mas aprendi a respeitar aqueles que “curtem um visual mais descolado” e também a não julgar alguém por sua aparência. Entendi que Deus não precisa ter, necessariamente, os mesmos gostos que eu, e que os cristãos, embora sejam todos irmãos, não devem ser obrigados a pensarem ou a se vestirem da mesma maneira.

É isso aí! Unidade não é conformidade e diversidade não é divisão! E viva la rivoluzione!

Porque SER IGREJA é vivenciar a simplicidade do Evangelho e a essência do Cristianismo: amar a Deus e ao próximo.

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Márcia Cristina Rezende
Bacharel em Teologia e Educação Religiosa
Marília/SP
 
Permitida reprodução e distribuição sem fins lucrativos
mediante citação da fonte e autoria.

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